Os lucros da CEB e a “Breusília” onde vivemos
- Beto Seabra
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Atualizado: há 2 horas
Beto Seabra - 31/05/2026
Li na imprensa que a Companhia Energética de Brasília, a CEB, teve um lucro extraordinário no ano passado. E ainda distribuiu R$ 336 milhões em dividendos aos acionistas. Fiquei boquiaberto. Para quem não se lembra, a CEB foi privatizada pelo governo Ibaneis Rocha em 2020, em leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo. A empresa foi arrematada por R$ 2,5 bilhões.
Mas foi vendida apenas a parte mais lucrativa da empresa. Ou seja, a Neoenergia, que comprou a CEB, ficou com o atendimento aos clientes, enquanto a chamada iluminação pública continuou nas mãos do governo. Com isso, a CEB foi mantida, mas controlando apenas uma pequena parcela do mercado de energia do Distrito Federal.
Exemplifico com a conta de luz do meu apartamento. Paguei R$ 331,51 no mês passado, sendo que desse valor apenas R$ 22,96 foi para a CEB, enquanto os restantes R$ 308,55 foram para a Neoenergia. Até aí, tudo bem. Quer dizer, tudo bem, não!
Apenas em 2025 a Neoenergia do DF teve um lucro líquido de R$ 5 bilhões, ou seja, duas vezes o valor que ela pagou pela CEB em 2020! Negócio bom esse, hein? Pois é. Mas o TCDF e a Câmara Legislativa não viram problema nenhum na privatização da empresa, mesmo sabendo que ela era muito lucrativa, apesar de algumas dívidas por má administração que poderiam ser facilmente solucionadas por um governo honesto.
Mas quero voltar ao parágrafo inicial, pois quero chegar em outro lugar. Sei que não adianta mais chorar pela privatização da CEB, apesar de que, em alguns estados, o serviço piorou tanto que os governos estão reestatizando as empresas de energia. Acho difícil isso acontecer aqui.
Mas a CEB que continuou existindo, nas mãos do governo, recebe hoje um bom dinheiro por mês para cuidar da iluminação pública. Os dados que apresentei acima mostram isso. Só de dividendos aos acionistas, repito, foram R$ 336 milhões, somente no ano passado. Mas e a iluminação pública, anda bem? Claro (desculpem o trocadilho) que não!
O Plano Piloto, onde moro e trabalho, tem diversas regiões mal iluminadas ou completamente no escuro. Já estão chamando a Capital Federal de “Breusília”, tantos são os pontos de escuridão e as poucas ilhas bem iluminadas.
Na região onde moro, na ponta da Asa Norte, é comum que síndicos e prefeitos mandem ofícios todas as semanas reclamando de postes queimados ou mesmo de extensos trechos no escuro. Imagino que em outras cidades a situação é igual ou pior.
E para não ficar apenas no impressionismo, vamos aos números oficiais. Em 2025, as reclamações contra a CEB Ipes (responsável pela iluminação pública) registraram que a empresa pública resolveu apenas 7% das queixas recebidas. Isso quer dizer que 93% dos cidadãos ficaram sem resposta. Talvez esses números expliquem o lucro alto, apesar das cidades do DF continuarem no breu.


A CEB já foi a melhor do Brasil, você sabia?
O problema (ou a vantagem) de ter passado dos 60 anos é que eu lembro de muita coisa. Pois não basta ter o Google, é preciso saber usá-lo.
Em 1996 eu era assessor de imprensa da Secretaria de Educação do GDF, na época comandada pelo prof. Antônio Ibañez Ruiz – não confundir com o Ibaneis Rocha, que quebrou o BRB e deixou a saúde e a educação do DF em petição de miséria.
Pois bem. Ibañez havia sido reitor da UnB e pelo excelente trabalho realizado lá foi convidado pelo Cristovam Buarque para comandar a Educação, a menina dos olhos do primeiro governador do PT no DF.
Ibañez e sua equipe criaram o programa Bolsa Escola, que virou modelo mundial de política pública e hoje é a nossa Bolsa Família, que foi adotada pelo governo Lula em 2003 e que já tirou da fome e da miséria dezenas de milhões de famílias brasileiras. Aquela gestão do prof. Ibañez também teve outros ótimos programas, mas o espaço aqui não permite que eu me alongue. Vamos então ao que se relaciona com a CEB.
Naquele período (eu trabalhei na Secretaria de Educação de 1995 até final de 1997, quando precisei sair para me dedicar a um mestrado), foi publicada uma pesquisa mostrando que a CEB era a melhor empresa de energia do Brasil. Isso mesmo. Não era de São Paulo ou do Rio de Janeiro a melhor distribuidora de energia, mas era de Brasília. Além de dar muito lucro ao governo do Distrito Federal, a CEB funcionava muito bem. As queixas eram mínimas, e praticamente todas eram resolvidas.
Lembrei disso porque, além de funcionar bem, a CEB também patrocinava projetos culturais e educacionais, mais ou menos como faz a Petrobras hoje. Eu era editor, juntamente com o professor Clodo Ferreira, da UnB, de uma revista de ciência e tecnologia para estudante da 5ª a 8ª séries (o equivalente hoje ao ciclo do quinto ao nono ano). A revista tinha o criativo nome de Contatos de Primeiro Grau, título criado pelo genial Clodo Ferreira. É que naquela época era assim que se chamava o ensino fundamental: primeiro grau.
Pois bem. A revista era distribuída em dezenas de escolas, com conteúdo de ciências, mas também de cidadania. Ela fazia um sucesso danado entre os alunos e professores.
Mas a revista só existia porque tinha um patrocinador, que era a CEB. Em contrapartida, uma parcela da tiragem da revista ia para os filhos dos trabalhadores da empresa, ajudando também na educação de outras crianças e adolescentes.
E como é que a CEB daquele tempo conseguia dar lucro, ser a primeira colocada do Brasil em atendimento ao usuário e ainda por cima financiar projetos culturais e educacionais? Um mistério né? Que nada. O nome disso é boa administração. A empresa era dirigida pelo José Carlos Vidal, um homem culto, doutor em economia e ciência política, e que sofreu tortura e prisão durante o regime militar. Em três anos (1996 a 1998) ele e sua equipe transformaram a CEB na melhor empresa pública de energia do País.
A partir de 1999, com a volta de Joaquim Roriz ao GDF, Vidal e sua equipe foram afastados e ali começou o declínio da CEB, que iria resultar em sua privatização.
Aqui cabe um pequeno parêntesis. Poucos antes de morrer, em 2019, Vidal manifestou sua vontade de doar à Escola Nacional Florestan Fernandes o valor a que teria direito como reparação pelos anos que ficou preso pela ditadura. Em 2024 seu desejo virou realidade, após grande empenho da família Vidal. Fecho parêntesis.
José Carlos Vidal tinha em sua equipe o também engenheiro Francisco Ivaldo Frota, responsável pela Diretoria de Gestão da empresa. Ivaldo, que viria a se tornar um grande amigo meu e do Clodo Ferreira, apostou na ideia do Contatos de Primeiro Grau e conseguiu um patrocínio da CEB para a impressão da revista, pois o orçamento da Secretaria de Educação tinha outras prioridades, claro, com tantas escolas para cuidar e alunos para educar.
Fiz questão de contar essa história para que as pessoas entendam o que pode fazer uma empresa pública bem administrada. Imaginem se os R$ 5 bilhões de lucro que a Neoenergia teve no ano passado fossem usados para melhorar a iluminação pública e ainda investir em obras e na melhoria do sistema de educação e na saúde pública? Pois era o que acontecia antigamente, antes da empresa ser privatizada e a cidade ser deixada no breu.
Vidal, Ivaldo e Clodo já nos deixaram, ou viraram seres de luz? Bom, certamente as ideias e os exemplos dos três continuam por aí, dando frutos.




Boa análise. Só sugiro uma correção, meu tio José Carlos Vidal era Doutor em Econômica e Ciências Políticas e não engenheiro.
O problema é a ganância que costuma cercar esses processos antes e depois da privatização. Muitas vezes o patrimônio construído por gerações é vendido a preço vexatório, e depois a lógica passa a ser maximizar dividendos enquanto o cidadão paga mais e recebe menos. Não há nada errado em empresas lucrarem — todos podem ganhar: investidores, trabalhadores, governo e população. O erro começa quando o lucro deixa de ser resultado de boa gestão e passa a depender do saque de riquezas coletivas sem retorno proporcional pra quem sustenta o sistema. Ainda tenho pesadelos até hoje quando penso no pré-sal. Estamos pagando a conta até hoje, em vários sentidos.
Muito bom! Gostei também do trocadilho: "iluminação pública, anda bem? Claro que não!".