Mostra de Paulo Andrade celebra arte que serve de vacina contra o fascismo
- Beto Seabra
- 14 de mai.
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Beto Seabra - 14/05/26

A arte não tem obrigação de ser nada. E ao ‘não ser’, ela acaba sendo fundamental para o ser humano viver. Desde os paredões da Serra Capivara aos murais das grandes cidades brasileiras, nossos artistas, pré-históricos ou pós-modernos, estão sempre desenhando a vida e o mundo ao redor.
Paulo Andrade é um artista mineiro radicado em Brasília desde 1977. Sem contar um intervalo em que viveu nos Estados Unidos, a capital federal é sua ocara, como definiu o arquiteto José Leme Galvão Jr., o Soneca, que assina a apresentação da mostra Do golpe ao golpe, que reúne obras de Paulo Andrade realizadas “no gélido calor dos acontecimentos iniciados no golpe de abril de 2016 contra a Presidenta Dilma Rousseff, até a tentativa de golpe de janeiro de 2023”, como explica Soneca.
Paulinho, como é conhecido pelos amigos e admiradores de sua arte, diz que não imaginava que seu trabalho viraria a série que agora ele expõe no Espaço Cultural do Instituto Alvorada Brasil. “Era mais um desabafo diante dos descalabros que atormentavam o Brasil e sua Democracia. E a mim, como cidadão. Para deixar claro, eu pintava para não enlouquecer com o fascismo tão aberto, as fake news e a hipocrisia deslavada”, disse.
Entre 2016 e 2023, data da histriônica apresentação dos patriotas sem pátria na Praça dos Três Poderes, Paulinho fez outros trabalhos, como as séries Muros e Flores, Jazz e Narciso. “Mas volta e meia eu retornava à temática política, pois o golpe é contínuo, permanente, está aí até hoje, nos ameaçando, nos oprimindo”, disse.
Ele lembra que o produtor cultural Mauro Di Deus e a professora e curadora Marília Panitz foram dos poucos que viram parte desse trabalho. “E quando inaugurou a nova sede do Instituto, ele, o Mauro, sugeriu que eu mostrasse esse trabalho”, disse Paulinho.
Paulo Andrade admite que quando viu a exposição montada percebeu que a sequência era “bem construída, contando parte da história do Brasil que vivenciamos tão doloridamente”.

Os quadros pintados por Paulo Andrade nos passam dor e angústia, dois sentimentos que aquele Brasil que não esteve anestesiado entre 2016 e 2022 pela estética do fascismo, sentiu. Sim, porque é preciso dizer que existe uma estética do mal, e é com ela que a extrema direita trabalha para iludir pessoas simples ou mesmo cooptar setores médios da sociedade desiludidos não se sabe bem com o quê.
A arte feita por Paulo Andrade, portanto, é uma vacina antifascismo. Com isso, não tento dar uma função à arte dele, de jeito nenhum. Aqui estamos falando de algo mais sofisticado, que Soneca define bem como “arte-denúncia”. Quando tudo se fecha, quando vemos juntar um governo fascista com uma pandemia onde pessoas morreram como moscas, a arte passa a ser uma das únicas saídas.
Bem disse o ator Wagner Moura em uma das entrevistas que deu por ocasião da participação do filme O Agente Secreto na disputa pelo Oscar. Para ele, o filme não seria possível sem aqueles quatro anos sombrios do governo Jair Bolsonaro. É verdade. O mal, organizado e transformado em projeto, encurrala um país e uma das poucas formas de escapar é pela arte. Foi o que Paulo Andrade fez.
Serviço
Exposição “Do golpe ao golpe”, de Paulo Andrade
Local: Espaço Cultural do Instituto Alvorada, SCLS 109, Bloco B, Loja 26.
Horário de visitação: segunda à sexta, das 16h às 19h.




Que artista! Absolutamente necessário!
Paulinho tem nossa amizade deslavada (irmandade) e merece respeito e admiração por sua arte.